SENHOR DO TEMPO

De: Ronaldo Junior
Para: Carlos Augusto Alencar

senhordotempoRigorosamente pontual, nosso personagem estava, com meia hora de antecedência, ajustando seus óculos no nariz e virando a chave do carro para sair de sua garagem naquela manhã de sábado.
Carlos ia para o Aeroporto Bartolomeu Lisandro, onde trabalhava como técnico em meteorologia, o que era apenas parte de sua atuação na área da geografia, sobre a qual se debruçara desde a juventude, atuando também no Colégio Estadual Benta Pereira como professor.
A pandemia de COVID-19 resumira suas saídas em ir ao mercado e ir ao aeroporto, uma vez que foram mantidos alguns voos diários, e ele comparecia assiduamente aos seus plantões.
Naquele momento, porém, ele estava um tanto borocoxô, já que acordar cedo nunca fora uma atividade entusiástica, e o sono inegavelmente tirava seu ânimo. Resolveu ligar o rádio com o CD de uma orquestra sinfônica tocando um movimento de “Le quattro stagioni”, composto por Antonio Vivaldi, e aquilo foi um leve sopro de ânimo em seu início de manhã. Suspirava enquanto cantarolava.
Talvez a sonolência tenha sido o motivo de o nosso personagem só se dar conta, repentinamente, ao alcançar a avenida principal, de que não sabia onde estava. Mas ele acabara de sair de sua casa, onde morava por anos, como não saber sua localização?
Acontece que a avenida principal não tinha calçamento, e o movimento era diferente. Não havia as incontáveis lojas e residências conhecidas por ele na Avenida 28 de Março, nem nada que permitisse a ele se situar, mas Carlos resolveu seguir o trajeto feito diariamente, só que por um lugar irreconhecível.
As pessoas estavam muito vestidas para as costumeiras altas temperaturas feitas em Campos dos Goytacazes. Os homens trajavam ternos, e as mulheres, vestidos longos. Todos olhavam para seu carro atônitos, como se fosse uma máquina nunca antes vista.
O condutor de tal máquina, porém, não estava nem aí para o que pensavam os passantes. Não queria saber o que estava acontecendo. Importava que chegasse ao aeroporto na hora, uma vez que não tolerava atrasos, e a música, que passava para outro movimento, era a única coisa que combinava com aqueles tempos antigos.

A verdade é que Carlos não demorou a se acostumar com o que se passava. Já começava a calcular o ano em que cada coisa surgiu e imaginou o que poderia presenciar com aquela insólita e inesperada viagem no tempo – depois do expediente, claro.
Disputando espaço com bondes, bicicletas, veículos motorizados e outros movidos à tração animal, Carlos tomou consciência de que não conseguiria chegar a tempo ao trabalho por um simples motivo: o aeroporto sequer havia sido idealizado naquele momento em que estava.
Mas em que ano ele se encontrava?
Aproveitou que já estava na Avenida 15 de Novembro e tomou a rua ao lado da Igreja do Santíssimo Salvador, estacionando próximo à sede da Sociedade Musical Lyra de Apollo. Saindo do carro, ele notou que era observado pelos inúmeros transeuntes como se fosse um esquisitão – saía de um veículo ultramoderno e não trajava terno como os demais homens ao redor.
Rapidamente, vestiu um paletó que estava no banco traseiro de seu carro para parecer menos estrangeiro aos olhos dos campistas daquele período. Um homem tentou se aproximar, mas Carlos estava tão perplexo que não notou e simplesmente o ignorou, passando a impressão de que, além de esquisito, era antipático.
Se dando conta de onde estava, ele parou por um momento e sorriu ao ver o Rio Paraíba do Sul e ao reconhecer a fachada do Solar que pertencera ao Visconde de Araruama, onde passou a funcionar, no tempo – que era – presente, o Museu Histórico de Campos.
Passado esse momento reflexivo, Carlos se pôs a caminhar, parando em um café localizado ali perto da sede da Lyra de Apollo, onde tomou nas mãos um exemplar do Monitor Campista, momento em que não se conteve: era quarta-feira, dia 02 de maio de 1900.
Por um instante, sentado na mesa daquele café que certamente já não mais existia, ele fechou os olhos – pois gostava de pensar no “escurinho” provocado pelas pálpebras – e percebeu que ele mesmo estava longe de nascer, assim como muitas das tantas pessoas que amava e lugares que frequentava.
Ao abrir os olhos, deixou-se olhar para o seu relógio digital de pulso. Os números indicavam que já passava das nove horas, mas ele viu além: o relógio indicava exatamente a data impressa no jornal. “Ou a quarentena está me enlouquecendo, ou eu fiz uma viagem no tempo!”, pensava ele.
Foi quando lhe passou pela cabeça a teoria mais insólita e mais provável: aquele relógio de pulso que custara uma grana era capaz de controlar o tempo. Em sua memória, relembrou a noite anterior: o relógio estava em cima da mesa da sala, e o pequeno Gael, seu filho mais novo, pegou o acessório para brincar, quando deve ter descontrolado o tempo.

Já sabia o que fazer: voltou ao carro e alterou o que indicava o relógio para 02 de maio de 2020, às sete e meia da manhã. Em alta velocidade, ele viu as transformações sofridas pela praça, pelos carros, pelas construções, pelas ruas ao redor. Pronto. Tudo estava como antes.
Consigo, restou apenas o exemplar do Monitor Campista, que ele acabou levando como recordação daquela experiência na qual ninguém acreditaria. Naquela edição, falava-se em uma audiência do delegado de polícia, a extração da loteria, uma missa na Igreja de São Francisco e uma assembleia de acionistas da companhia de Seguros São Salvador.
Com um sorriso nostálgico, deu a partida no carro e foi trabalhar, ainda com muitos minutos de antecedência, rindo da própria sorte, sem acreditar no que acabara de viver. Ingridi, a esposa, e Glenda, sua filha mais velha, não acreditariam nos desdobramentos da brincadeira de Gael com o relógio, mas ele tinha o jornal para comprovar.
Depois disso, quando alguém o chamava de “senhor do tempo”, apelido advindo do seu ofício de meteorologista, ele passou a dar um sorriso pensando que a expressão ia muito além das previsões climáticas. Além disso, Carlos nunca mais precisou se preocupar com horários: deixava as horas passarem e, quando bem queria, voltava no tempo para chegar sem qualquer minuto a mais ao seu destino.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: